desertação
I
no horizonte
emerge uma linha violeta
acima do mar bravio
por entre o céu nublado
é o encanto de sua alvorada
o amanhecer que hoje foi para ti
se de minha insônia a carência
restam anotações, rejeitadas
como um oásis que me encontra
na perdição da sede
sede de um bêbado
insaciavelmente farto
andando no deserto de gente baixa
de joelhos a olhar por baixo
os narizes de pé
e o balançar de pescoço
sempre oposto as olhos meus
como se todos fossem medusas piedosas
que temem por me petrificar de paixão
mas dentre a terra seca
brota o cacto e o espinho
e até descobrir
que só a água que ele guarda
me nutre
não sou nada além
de um parasita de alguém
se levar isso em conta
já é em si uma quebra de preceito
faço e faria de novo
pois a primeira mentira
se bem reprimida
não dá espaço para a segunda
e a pena gigante
apesar de enorme
ainda é tão leve quanto necessita
II
não quero-te em um ciclo
sei que sucumbiria do declínio ao fim
sem talvez deixar vestígio para um recomeço
quero tentar medir a progressão
da nossa ascensão
mesmo sabendo não se poder
estava no mínimo desorientado
teimava na burrice da racionalidade
que só me trouxe perturbações
ai vem seu sorriso
a reconciliar todos os paradoxos
finalmente me olha nos olhos
me transforma em pedra
e despedaço num suspiro ansioso
me compadeço dos que julguei
aguardando o que me cabe
na insuficiência destes versos
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Publicada em Poema Pingado
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